Rochas magmáticas ou ígneas

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Referência : Galopim de Carvalho, A. M., (2018) Rochas magmáticas ou ígneas, Rev. Ciência Elem., V6(4):072
Autor: A. M. Galopim de Carvalho
Editor: José Ferreira Gomes
DOI: [http://doi.org/10.24927/rce2018.072]
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Os geólogos sabem que Terra se estuda nas rochas e, daí, o seu grande interesse no estudo destas entidades naturais construtoras da capa mais externa do planeta, a que deram o nome de litosfera (do grego lithós, pedra, rocha, e sphaira, esfera). Entendida como o conjunto da crosta com a parte superior rígida (rochosa) do manto superior, a litosfera resultou de um processo de diferenciação e solidificação de uma espécie de “oceano” de magma, que se seguiu à acreção do planeta. Assim sendo, o estudo das rochas deve começar pelas magmáticas ou ígneas pois foram as primeiras a ser geradas na terra.

Designamo-las magmáticas porque nasceram do arrefecimento e consequente solidificação de magma. O magma é, pois, um material ígneo (do grego, igneus, incandescente, em fogo) e assim podemos usar a expressão rocha ígnea, sinónima de rocha magmática.


Grande parte das rochas magmáticas ou ígneas como, por exemplo, o granito, o sienito, o diorito, o gabro e muitas outras são geradas em profundidade na crosta ou no manto, e, por tal razão, designam-se também por rochas plutónicas (Plutão, o deus das profundezas, na mitologia Romana). As rochas plutónicas também designadas por rochas intrusivas, pois os magmas instalam-se, de modo mais ou menos forçado, em rochas mais antigas a profundidades dentro da crosta terrestre, e que depois solidificam lentamente abaixo da superfície, embora possam ser posteriormente expostas pela erosão (FIGURA 1). As rochas vulcânicas ou extrusivas, como os basaltos, resultam da consolidação de magmas que brotam à superfície (FIGURA 2). Relativamente aos granitos e às outras rochas plutónicas, nunca ninguém viu o seu carácter magmático ou ígneo, mas tal deduz-se a partir de muitas observações, quer no terreno quer no laboratório.

É muito frequente, entre nós e em muitos manuais de ensino, o uso da expressão rocha eruptiva como sinónima daquelas duas. Contudo se é correto usar indiferentemente as expressões rocha magmática e rocha ígnea, já não o é adjetivá-las todas por eruptivas, pois este último qualificativo pressupõe a origem numa qualquer erupção vulcânica (de Vulcano, o deus do fogo, na mitologia romana), o que nem sempre é o caso. Todas são magmáticas ou ígneas, mas só as vulcânicas são eruptivas.


FIGURA 1. Nesta fotografia, tirada nas imediações da Capela de São Pedro do Campo, Serra de
Montemuro, observam-se diaclases no afloramento granítico, com instalação de vegetação. A servir de escala
encontra-se uma mala com 20x17x18 cm.
(Fonte: Banco de Imagens da Casa das Ciências)

Sabe-se também que nunca as rochas plutónicas resultaram de qualquer atividade eruptiva. Assim, chamar eruptivas a rochas como os granitos e outras, arrefecidas e solidificadas em profundidade é abusivo e incorreto.

Só as rochas vulcânicas são, pois, passíveis de uma tal adjetivação, uma vez que, com origem no latim, eruptio, -onis, o termo erupção implica a ideia de extrusão, expulsão, saída do interior para o exterior.

A expressão rocha eruptiva tem predominado entre nós, tanto nos textos da especialidade como nos manuais de ensino que, naturalmente, naqueles se basearam e baseiam. Uma tal situação reflete uma época de forte influência, à escala internacional, dos autores de língua alemã, pioneiros na petrografia, na viragem do século XIX ao XX, como W. C. Brögger, R. Blum, C. Gagel, P. Niggli, F. Zirkel, H. Rosenbusch e A. Osann, em cujos textos a expressão Eruptivgestein se aplica também às rochas plutónicas (não eruptivas).

No que nos diz respeito, o uso da expressão rocha eruptiva, como sinónima de rochas magmáticas ou ígneas, reflete, sobretudo, a influência dos petrógrafos de língua francesa, como se pode verificar nos textos de autores consagrados como A. Lacroix, J. Jung, R. Brousse, E. Raguin, F. Rinne, A. Michel-Lévy, F. Fouqué, entre outros, durante os últimos anos do século XIX e da primeira metade do século XX, que, como os alemães, sempre privilegiaram a designação eruptive.

E, como não podia deixar de ser, os petrólogos e petrógrafos portugueses não fugiram a esta influência, numa época de francofonia dominante. Nesta reflexão deve recordar-se o papel dos pioneiros da petrografia em Portugal, no último quartel do século XIX, Pacheco Canto e Castro, J. Rego de Lima e V. Souza-Brandão. Os dois primeiros estudaram em Paris, com F. Fouqué (1828-1904), o vulto grande da petrografia em França. O terceiro, além de ter estudado na École de Mines, de Paris, cursou engenharia, na Academia de Minas de Freiberga. O mérito da obra que nos deixou escrita em língua alemã, com particular incidência nas Eruptivegestein, reforçou o peso da expressão rocha eruptiva na terminologia usada pelos petrógrafos portugueses que se lhe seguiram.


FIGURA 2. Espessa escoada basáltica com disjunção prismática subparalela, formando um importante
ressalto na topografia e contendo uma cascata (não ativa na altura em que a foto foi obtida apesar da
coloração esbranquiçada poder sugerir o contrário). O corte dos prismas na base do ressalto e na linha de
água a montante motivou a recente designação de Calçada de Gigantes (Santa Maria, Açores).
(Fonte: Banco de Imagens da Casa das Ciências)

Há autores que, apesar de tudo, continuam a defender a manutenção da expressão rocha eruptiva no sentido clássico, isto é, como sinónimo de rocha magmática ou rocha ígnea. Mas, esta não é a posição atualmente mais consensual em autores de língua inglesa, onde a dita expressão tem vindo a cair em desuso. É também esta a posição (implícita) da Subcomissão para a “Sistemática das Rochas Ígneas” da International Union of Geological Sciences (1989).




Criada em 27 de Outubro de 2018
Revista em 23 de Setembro de 2018
Aceite pelo editor em 4 de Dezembro de 2018