O Estanho e as Cassitérides

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Referência : Galopim de Carvalho, A. M., (2019) O Estanho e as Cassitérides, Rev. Ciência Elem., V7(1):004
Autor: A. M. Galopim de Carvalho
Editor: José Ferreira Gomes
DOI: [http://doi.org/10.24927/rce2019.004]
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Representado pelo símbolo Sn, o estanho está situado no grupo 14 da classificação periódica dos elementos químicos, com o número atómico 50 (50 protões e 50 eletrões) e a massa atómica 118,710 u.

É um metal branco prateado, facilmente maleável, muito usado em baixelas e múltiplos objetos de adorno. À semelhança do chumbo, tem baixo ponto de fusão, sendo, por isso, utilizado em ligas com este metal, como solda (solda macia ou solda branca). Resistente à corrosão, não se oxida facilmente no contacto com o ar, pelo que se usa como revestimento da chapa de ferro, na chamada “folha de Flandres”, a vulgaríssima lata dos enlatados, para conveniente conservação de alimentos.


O estanho (do latim stannum) ocorre na natureza, principalmente como cassiterite, o dióxido de estanho, de fórmula SnO2, descrito, em 1832, pelo mineralogista francês, François Sulpice Beudant (1787-1850), que lhe deu este nome com base em kassiterós, o nome grego do estanho. Conhece-se cerca de uma dezena de minerais de estanho, mas é a cassiterite o único com valor de minério, isto é, mineral com valor económico e que, portanto, vale a pena procurar e explorar.

Sabemos hoje que a Cornualha foi um dos produtores mundiais de cassiterite, pelo que deve ter sido esta região do sul da grande ilha britânica, que deu origem ao mito das Cassiterides insulae ou ilhas do Estanho.

Geralmente opaca, a cassiterite é translúcida quando em pequenos cristais de brilho adamantino ou gorduroso e cor variável entre preto, púrpura e castanho-avermelhada ou amarelada. Ocorre em filões hidrotermais de alta temperatura e pegmatíticos ricos em quartzo, associada a volframite, apatite, arsenopirite e dolomite, entre outros, em relação direta com intrusões graníticas.

Sendo um mineral resistente à meteorização e relativamente duro, concentra-se em depósitos aluviais de tipo placer, os mais usuais na respetiva mineração, como acontece atualmente na Malásia, na Tailândia, na Indonésia e na Rússia. Com ocorrências significativas e em laboração em Portugal, nas minas da Panasqueira (Beira Baixa) e de Neves Corvo (Baixo Alentejo), a cassiterite ocorre nas aluviões da Ribeira da Gaia (afluente do Zêzere), na vizinhança de Belmonte, tendo sido explorada na Antiguidade, pelos romanos, ou mesmo antes, e mais recentemente, entre 1910 e 1940.


FIGURA 1. Mapa da Europa, de acordo com a cosmografia de Estrabão, mostrando
as ilhas Cassitérides a noroeste da Península Ibérica.

Em finais do Neolítico, há cerca de 5400 anos, quando a metalurgia do cobre substituía o afeiçoamento de alguns utensílios de pedra, surgiu, talvez fortuitamente, o bronze, uma liga de estanho e cobre. Com efeito, admite-se que, casualmente, algures no Médio Oriente, se tenha utilizado uma mistura de minérios destes dois elementos. Mais duro do que o cobre e com a mesma ductilidade, o bronze passou então a ser utilizado na produção de punhais, espadas, machados, objetos de adorno e outros. E não mais deixou de ser uma liga importante, com aplicações nos dias de hoje, em especial na escultura e no fabrico de sinos. A partir desse grande passo civilizacional, a cassiterite tornou-se alvo de procura e foi assim que, no século VII a. C., mercadores fenícios vinham à Ibéria e ao sul de Inglaterra (na Cornualha) buscar minério de estanho, uma atividade a que se seguiram gregos, cartagineses e romanos.

Cassitérides foi o nome dado, na Antiguidade, a um lendário arquipélago, imaginado a oeste da Grã-Bretanha, onde os citados mercadores iam buscar o dito minério. Entre os estudiosos antigos que, fantasiosamente, procuraram descrever essas ilhas destacam-se o historiador grego Heródoto (485? - 420 a.C.), o historiador e geógrafo grego Posidónio (c. 135 a.C - c. 50 a.C.), o historiador grego Diodoro da Sicília (90 a.C.), geógrafo grego Estrabão (c. 63 a.C. - c. 24 d.C.) e o naturalista romano Plínio, o Velho (23 - 79 d. C.).

Cassitérides foram, depois, as ilhas míticas que, até finais do século XV, os cartógrafos acreditavam existirem no Atlântico, a noroeste da Península Ibérica.


Referências

  1. A. M. Galopim de Carvalho, Cristalografia e Mineralogia, Universidade Aberta, 1997, ISBN 9789726741848.
  2. A. M. Galopim de Carvalho, Introdução ao Estudo dos Minerais, Âncora Editora, 2002, ISBN 9789727800919.


Criada em 6 de Fevereiro de 2019
Revista em 7 de Fevereiro de 2019
Aceite pelo editor em 12 de Março de 2019